Sem dúvida!

Li uma entrevista ao puto (tem 17 anos) que marcou de forma indelével milhões de adolescentes na década de 90 - Spencer Elden, o bebé da capa do Nevermind dos Nirvana - e, por mais dúvidas que tivesse, ele dissipou-as: os putos hoje em dia não são metade felizes que nós!

Passo a explicar: o referido puto, quando não está a trabalhar, ou joga ao Rock Band na XBox, ou ouve Techno aos altos berros.

Sobre o Techno, nem sequer vou perder tempo a dissecar sobre a falta de lucidez, bom-gosto, vá, noção do que é Música.

Sobre jogar ao Rock Band na XBox, em vez de pegar num instrumento real e ir ter com uns amigos para fazer uma banda e sonhar com digressões mundiais em palcos enormes, com milhares de fãs a cantar as músicas em voz alta, o man agarra-se ao comando em frente à televisão. E isto só se torna realmente preocupante, quando imagino a quantidade de putos que, como este gajo, não vivem sem os milhares de gadgets com que diariamente são inundados, seja pela televisão, sites, amigos (duvido que haja muitos a ler jornais - e/ou livros).

Devo começar por afirmar desde já que não sou um hipócrita: tenho (e uso) telemóvel (com leitor de música de formato digital) há 10 anos - sensivelmente por esta altura do ano, quando entrei para a faculdade; tenho (e uso) computador há mais de 15 anos; não tenho (mas uso quando consigo) Playstation, seja a 2, a 3, seja o Pro Evolution, seja o GTA, sejam jogos de carros; tenho DVD, pen, máquina fotográfica digital, Internet portátil no Laptop da Lia, uso o comando remoto e o sleeper nas inúmeras televisões que "tenho" (seja em Lisboa, Abrantes, Aveiro, Figueira da Foz), etc etc etc... Mas raios me partam se não consigo aguentar e viver bem sem estes "artefactos" que, apesar de fulcrais na minha vida, só foram entrando aos poucos no meu quotidiano. Eu cresci a vestir as camisolas (e as calças) dos meus primos mais velhos - a grande maioria destas com remendos nos cotovelos/joelhos - a jogar à bola, a correr, a levar calduços porque chegava a casa com as calças e os ténis novos todos sujos e raspados, a jogar xadrez, às escondidas, à apanhada, a lançar papagaios de papel e, pasme-se o adolescente do século XXI, a ler... livros! Sossegado (dentro da definição hiperactiva que conheci), concentrado, a ler... Fosse o Tio Patinhas, Uma Aventura, os Cinco, os Sete, o que quer que fosse, transportava-me para outras dimensões, quase sempre inatingíveis.

Digam-me um (só peço um) puto com mais de 13 anos que saiba o que é sair de casa sem o mp3, o telemóvel, que chegue a casa depois da escola e, em vez de ir para a rua, não se agarre ao computador, à televisão, o que quer que seja!

O paradigma está alterado meus amigos. Apesar de ter assistido com deslumbre e expectativa ao avanço brutal que toda a tecnologia teve nos últimos (digamos) 15 anos, sou um produto obsoleto desta sociedade ávida do que vem a seguir. Eu, que visitei dos primeiros sites de Internet, os mIRC's, que ficava com a Net ligada 12 horas consecutivas para tirar um mp3 dos Smashing Pumpkins ao vivo num sítio qualquer do planeta (por exemplo), que jogava ao Wolfenstein, NBA, BMP, Elifoot, e tantos tantos outros, sou, com pouco menos de 30 anos, um "gajo esquisito" para os putos de hoje em dia.

A grande questão é que duvido (mas duvido muito) que estes putos, sedentos de coisas novas, ávidos de tecnologia, alguma vez sejam tão felizes como eu e tantos outros fomos. Porquê? Porque, ao contrário deles, eu vivi sem tudo isto que hoje lhes invade a cabeça. Porra, eu sou do tempo em que havia 2 canais na televisão portuguesa! Eu chegava a casa da escola e só não saía logo porque os meus pais, e bem, me obrigavam a fazer os trabalhos de casa. Assim que estavam feitos, xau aí e até à hora de jantar, em que invariavelmente me iam buscar pela orelha porque já estavam há meia-hora à minha espera! Eu estava habituado a não ter nada para fazer (o que na altura era equivalente a ter mil coisas diferentes para experimentar). A minha preocupação era estafar-me o dia todo e dormir bem, porque no dia a seguir ia-me estafar todinho outra vez... Não era que estou a ficar sem bateria no telemóvel, ou na PSP...

Benditos anos 90, benditas correrias, benditos jogos de xadrez, benditos livros de banda desenhada ou ficção... E benditos computadores e gadgets e todas as mil e uma cenas que nos invadem a vida nowadays. Desde que articuladas com tudo o resto e, principalmente, se forem vividas como acrescentos e não como modo de vida!

Termino com uma citação do (agora) adolescente que ficou conhecido pelo mundo fora por estar na capa de um grande álbum rock a nadar com a pila de fora, em frente a uma nota de 1 dólar presa num anzol : "it would have been cooler to have been a teen in the early '90s".

You bet puto!

3 Response to "Sem dúvida!"

  1. Juanna Says:

    Ah, Ah! Estive a ler a entrevista e deixa-me que te diga que é um pouco ridícula! Afinal, o puto simboliza uma geração e só diz parvoíces!

    Anyway! Tenho reparado que o pessoal anda numa de revivals: "Naquele tempo é que era bom"! Cá para mim isto é tudo um pouco dúbio. No outro dia uma senhora no meu bairro falava de Salazar com um brilho nos olhos e eu pergunto-me será que mudamos mesmo para pior?

    Os meus pais com a nossa idade não tinham televisão e divertiam-se à brava e nós, lamentamos o Tom Sawyer mas, também, fomos felizes de à brava. Agora, os putos jogam playstation e acredito que, também, sejam felizes. As coisas mudam, é um facto, mas não, necessariamente, para pior. É uma questão de perspectiva. E sim! Eu sou apologista do “no nosso tempo é que era bom”! Mas o que nos diferencia destes jovens de hoje é que nós passávamos horas de parvoíce no mIRC e eles passam no world of wrcraft. Muda o cenário, mas a parvoíce é a mesma!

    E depois, nós também mudámos. Por exemplo: eu dantes ia para Paredes de Coura de comboio, mochila às costas, voltava imunda a precisar de dormir, pelo menos 10 horas. Hoje em dia vou de carro, monto a tenda numa propriedade qualquer, lavo os dentes no café da vila e levo um necessaire! LOL!
    Hoje em dia tenho dinheiro para me embebedar brutalmente e, naquela altura, corria para o rookie à sexta-feira para ganhar 10 finos com um sabor intragável, mortos e sem ponta de espuma.

    Mas queres saber o que acho: naquela altura é que era! Que prazer me deu empurrar o teu carocha a meio da noite na Figueira para os meus pais não darem conta que estava a sair e descobrir anos mais tarde que eles ouviram perfeitamente.
    Afinal, acho que é isto que faz a nostalgia: saber que era tudo tão bom!

    Eu cá acho que o que nos diferencia dos jovens de hoje em dia, não é as PS, não é os telemóveis, não é o Tom Sawyer ou os Teletubies é o facto de lutar pelas coisas e não as ter porque sim.

    Eu sou da geração de 80/90 e sempre me lembro de ter computador, sempre me lembro de ter uma boneca com todos os acessórios que ela tem direito, lembro-me de receber um telemóvel aos 18 anos, lembro-me de ter um vídeo e gravar todos os filmes que davam na TV, lembro-me de todas as mordomias que podem ser comparáveis às dos putos de hoje em dia… mas também me lembro do que me custava conseguir coisas tão simples como sair à noite até depois da meia noite.

    Acho que o problema da juventude de hoje está um pouco no liberalismo dos pais. Dantes ir a um Festival de Verão era um feito! Hoje em dia, se não fores pelo menos a um, és um nerd. Eu para ter umas levis tive de juntar dinheiro para as comprar e usei-as até se desfazerem em pedaços (o que na altura era fixe porque se usavam calças rasgadas), hoje em dia os putos têm tudo de marca e os pais não deixam os meninos brincar no quintal para não se sujarem. Aliás, os putos de hoje não têm quintais!

    Termino a dizer que: tenho muito orgulho de pertencer à geração das crianças do fato de treino e à geração dos adolescentes que saiam até à meia noite!
    Como diria o Nuno Markl: “com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos. Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas. É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada.”

  2. nicha Says:

    tenho recebido v�rios mails, sobretudo dirigido para os que nasceram antes de 1986,que apontam para este sentimento que tu aqui traduzes.
    v�s todo este "viver" dos "jovens " de hoje de uma forma bastante acutilante e realista
    gostei.. parabens
    nicha

  3. Ricardo Says:

    Por baixo. Todo assinadinho.